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 Idéias e Opiniões
     
Para onde iremos? Por Daniel Lopes

Era por volta de 19:00 horas, parei na bomba para abastecer meu carro e a uns 20 metros pude ver o segurança do posto que empurrava o homem em direção á larga avenida; que bem sinalizada abraçava os carros com seu zumbido e suas luzes. 


Ali veículos rápidos quase num piscar de olhos passavam.  Maltrapilho, mas ainda assim vestido com traje completo; calça camisa e um surrado sapato; segurava em uma das mãos um saco e na outra algo arredondado assemelhando-se a um coco. 

Cena corriqueira nas grandes cidades, e para quem nelas mora infelizmente já não mais merece grande atenção. 

Sai do posto onde coloquei uns poucos litros de combustível, em troca de uma pequena fortuna e me dirigi a um supermercado muito próximo dali. Fiz algumas compras para um lanche noturno e quando ia sair para a mesma avenida, pude ver o mesmo homem maltrapilho parado na saída do supermercado. 

Estava ali em pé, sujo, com seu semblante envelhecido. Passei muito perto dele. Tinha uns poucos e careados dentes, que ficaram a mostra quando meio sem jeito me ofereceu seu produto; um pequeno mamão ainda verde. Toquei meu carro, e sem poder dar marcha ré, dei uma volta no quarteirão e entrei de novo no supermercado. 

Comprei uma caixinha de suco pronto, e salgadinhos. Novamente dentro do carro me preparei para entregar o pequeno lanche ao homem maltrapilho. Na saída do supermercado parei e procurei aquela triste figura. 

Não estava mais ali. O segurança do supermercado também já o havia enxotado; tal qual um cão sem dono. Pude vê-lo atravessando a terceira pista da avenida. Caminhava com dificuldade, arrastava uma das pernas aparentando ter uma severa limitação física. 

Distraído, observando o homem que sumia do outro lado da larga avenida, recebi uma forte buzinada do outro afortunado que no carro atrás de mim exigia que eu saísse de seu caminho. Dirigi-me para casa. 

Do céu carrancudo caiam algumas gotas de chuva, esparsas, ralas;  quase não molhavam o para- brisas do carro. Gotas pequenas, ralas, como as que caíram de meus olhos enquanto tocava o carro em direção de minha casa. 

Pensava naquele homem, que ninguém queria por perto com seu velho saco de mamões. Pensava naquele homem, que sujo e abandonado tentava em vão vender seu pequeno patrimônio. 

Tentava vender, apenas isso. Tentava vender por umas poucas moedas alguns mamões, mas o mundo frio e egoísta não lhe permitia comercializar as frutas, pois ele não estava autorizado a abordar os clientes do posto nem do supermercado. 

Fui por outro caminho, procurando demorar a chegar a casa, para assim digerir o gosto amargo que fica quando algo nos abala emocionalmente. Pensava nos motivos que nos levaram como sociedade a ficarmos assim tão cruéis e insensíveis.  Talvez o medo seja a explicação mais plausível. 

O medo de nos envolvermos, o medo de sermos atacados, agredidos, roubados. O medo do futuro; o mesmo medo que nos faz acumular bens, patrimônio, títulos, e tudo aquilo que de nada nos servirá quando nossa alma imortal deixar nosso corpo e quando sobre nós descer as ultimas pás da fria terra. 

Todo esse medo que nos tira a coragem de sermos mais humanos, mais solidários, mais Cristãos, é que tem feito desse mundo um lugar tão cruel. A visão daquele homem, que já foi criança, e que agora vaga coxeando perdido pelas ruas, é uma ofensa a nossa condição de nação próspera; é uma prova de nosso pouco avanço na acolhida e proteção dos desafortunados. 

Municípios como Cuiabá, e quase todos os outros cinco mil e tantos neste Brasil; dispõem de uma secretária de assistência social, com recursos para resgatar, cuidar e devolver a dignidade a nossos irmãos moradores de rua. 

Aquele homem que agora é uma sombra de um ser humano, já foi um bebe que alguém acalentou ; e  talvez uma terna mãe lhe deu o peito, trocou suas fraldas, mas agora reduzido a um pedinte não é mais nada; tornou-se invisível até mesmo para quem o dinheiro de nossos impostos impõe a obrigação de cuidar. 

Mesmo nestes dias de loucura, onde grassa a violência, onde o sentimento de individualismo predomina, e o tempo somos induzidos a valorizar o “ter” em detrimento do “ser”; deveríamos parar e repensarmos atitudes e valores já quase esquecidos e considerados coisa de” fracos”. 

Urge que realimentemos nossos melhores sentimentos, seja uma simples gentileza ao permitir alguém entrar pela porta antes de nós, ou atos mais honrosos como dirigir-se aos mais velhos com o já quase esquecido pronome de tratamento “Senhor ou Senhora”. Nossa sociedade embrutecida pela correria, pela desagregação, diz-se chocada quando vê pela TV que um aluno espancou seu professor; ou que um neto agrediu a avó anciã e indefesa. 

Tudo isso teve um começo, e foi quando passamos a perder a ternura nas pequenas coisas do nosso cotidiano. 

A raça humana não foi concebida para se digladiar e esmagar uns aos outros; para desprezar os desafortunados pela vida. Fomos concebidos para sermos mais que isso. Fomos concebidos para cuidarmos uns dos outros, mas em algum tempo entramos por um caminho tortuoso e nos perdemos em meio à censurável cultura de desprezo pelos que não são nada para nós.

Daniel Lopes de Cuiabá para o Porto Noticias
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