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Emendas para shows e festas colocam deputados de Mato Grosso no centro de debate sobre gasto público

A destinação de emendas parlamentares de deputados estaduais de Mato Grosso para a realização de shows, rodeios, festivais e outros eventos passou a ocupar o centro do debate político no Estado e levantou questionamentos sobre prioridades, transparência e utilização dos recursos públicos.

O tema ganhou maior repercussão após uma série de reportagens revelar o volume de recursos provenientes de emendas parlamentares destinados a eventos culturais e de entretenimento. Levantamento publicado pelo EH FONTE apontou que, entre 2021 e maio de 2025, quatro eventos receberam juntos R$ 27,5 milhões em recursos de emendas parlamentares.

Entre os eventos citados estavam a Exposição Vale dos Dinossauros, a Semana do Cavalo, a Páscoa Abençoada e programações ligadas ao lambadão.

No mesmo período, segundo o levantamento, R$ 227,5 milhões em emendas parlamentares já haviam sido pagos à Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel). A investigação jornalística também chamou atenção para a concentração de recursos em determinadas entidades responsáveis pela realização de projetos e eventos.

A Associação Mato-grossense de Cultura, por exemplo, apareceu como uma das principais beneficiárias de emendas estaduais. Levantamento divulgado pela imprensa apontou que a entidade recebeu cerca de R$ 57,6 milhões em quatro anos.

A repercussão dos números levou o debate para dentro do Governo do Estado e da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

Em abril de 2026, o governador em exercício Otaviano Pivetta passou a defender a imposição de limites para o uso de emendas parlamentares em festas e shows, principalmente em apresentações de artistas nacionais com cachês elevados.

O argumento do governo é de que os recursos públicos devem priorizar áreas consideradas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura. Pivetta chegou a defender que municípios com dificuldades na prestação de serviços de saúde não deveriam utilizar recursos públicos para bancar grandes eventos.

A proposta, no entanto, abriu discussão entre os deputados estaduais. O presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi, defendeu que qualquer mudança nas regras de destinação das emendas precisa passar pelo Legislativo e fez distinção entre grandes shows e festas consideradas tradicionais.

O deputado Dilmar Dal Bosco também afirmou que uma alteração na forma de utilização das emendas dependeria de mudanças nas regras que disciplinam esses recursos.

Mesmo com a discussão sobre restrições, novos repasses continuaram sendo realizados. Em abril deste ano, o Governo de Mato Grosso confirmou R$ 4,57 milhões em emendas parlamentares destinadas a rodeios, festivais culturais, feira gospel, shows, circuito de carros antigos e competições esportivas.

Os recursos tiveram origem em indicações de diferentes deputados estaduais e foram destinados a eventos realizados em vários municípios.

Entre os repasses divulgados estavam R$ 1,97 milhão para um circuito de veículos antigos, R$ 600 mil para um evento country em Rondonópolis, outros R$ 600 mil para uma festa em Santo Antônio do Leste e aproximadamente R$ 599 mil para um festival cultural em Bom Jesus do Araguaia.

Registros oficiais também mostram a utilização de emendas para eventos específicos. Um dos convênios firmados pelo Estado destinou R$ 150,3 mil para a realização do 2º Fest Country, no município de Salto do Céu. O recurso foi destinado à realização de atividades relacionadas ao rodeio, montarias, estrutura e entretenimento.

Outro convênio previu R$ 100 mil para a realização de um projeto de shows em praças públicas de Cuiabá.

A discussão ganhou novo ingrediente em maio, quando uma declaração do deputado estadual Fabinho Tardin, durante a ExpoVG, provocou críticas e questionamentos sobre a relação entre eventos públicos e promoção política.

O parlamentar afirmou, durante discurso, que o evento só teria ocorrido porque ele ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa e mencionou a possibilidade de novos shows em edições futuras. O episódio repercutiu por ocorrer em ano eleitoral e levantou discussões sobre os limites da divulgação e da participação de parlamentares em eventos financiados com recursos públicos.

Especialistas e órgãos de controle, no entanto, fazem uma distinção importante: a destinação de emendas para eventos culturais, esportivos ou turísticos não representa automaticamente uma irregularidade.

O debate está concentrado principalmente na transparência dos repasses, nos critérios utilizados para a escolha dos projetos, na prioridade dada aos gastos, nos valores destinados a determinadas atrações e na necessidade de impedir que recursos públicos sejam utilizados para promoção pessoal ou eleitoral.

O cenário ocorre em meio ao aumento da fiscalização sobre as emendas parlamentares em Mato Grosso. Em fevereiro deste ano, representantes do Ministério Público, Tribunal de Contas do Estado e Ministério Público de Contas anunciaram a criação de mecanismos conjuntos para ampliar a transparência e o acompanhamento da aplicação desses recursos.

Além da discussão sobre shows e festas, o sistema de emendas parlamentares estaduais já vinha sendo alvo de investigações relacionadas à execução de recursos em outras áreas.

A soma desses episódios transformou as emendas parlamentares em um dos principais temas do debate político em Mato Grosso. De um lado, deputados defendem que os recursos ajudam a financiar cultura, turismo, esporte e eventos que movimentam a economia dos municípios. De outro, críticos questionam a destinação de milhões de reais para festas enquanto cidades enfrentam problemas em áreas como saúde e infraestrutura.

O embate agora envolve não apenas o volume de recursos destinados aos eventos, mas também a necessidade de estabelecer regras mais claras para garantir transparência, rastreabilidade e critérios objetivos na utilização das emendas parlamentares.

Fonte: Porto Noticias

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