Artigo: O Branco na mente do escritor: Entre o silêncio e a semente da palavra. Por Sidney Mantoan


Há dias em que o escritor desperta e percebe que algo se perdeu no silêncio da madrugada. O teclado do computador repousa sobre a mesa, a tela aguarda ansiosa as palavras, mas a mente… essa parece coberta por um nevoeiro espesso, onde nenhuma ideia ousa atravessar. É o famoso branco, esse visitante indesejado que chega sem avisar e rouba a voz de quem ama praticar escritas.
É como se o universo resolvesse brincar de esconderijo com os pensamentos. O escritor procura nos cantos da memória, nas gavetas da imaginação, até no vento que passa pela janela, mas nada. O vazio é absoluto. E quanto mais se tenta forçar, mais distante tudo parece ficar. É um gol aberto no último minuto da partida, mas as pernas do jogador não se movem. É o coração pedindo para dançar, mas a música insiste em não tocar.
As horas, então, tornam-se inimigas. O relógio, com seu tique-taque implacável, martela a consciência. A ansiedade cresce como maré cheia, invade o peito, aperta a respiração.
A arritmia surge como tambor de guerra, lembrando que a mente e o corpo caminham juntos nesse labirinto. Cada minuto arrasta consigo a frustração de não conseguir ser aquilo que, no fundo, se é: alguém que transforma o invisível em palavras.
Mas talvez o branco não seja apenas um inimigo oculto. Talvez ele seja um convite. Um convite ao recolhimento, à escuta do silêncio, à redescoberta do que pulsa por trás da pressa. Porque no vazio também habita a semente. E, como toda semente, ela precisa de tempo escuro, de quietude, para depois brotar com força.
O escritor, então, aprende ainda que a duras penas que até o branco é parte da escrita. Que o silêncio pode ser tão fértil quanto o barulho das ideias. Que a pausa, por mais dolorida que pareça, é também uma página em branco da vida, esperando o momento certo para ser preenchida.
E quando a primeira palavra enfim rompe a muralha, ela chega como chuva mansa depois da longa seca. A alma se alivia, o coração reencontra seu compasso, e o escritor descobre: o branco nunca foi ausência, mas intervalo. Um tempo secreto em que a própria vida, silenciosa, tecia novas histórias, esperando o instante certo para florescer nos pensamentos dos leitores.
Por Sidney Mantoan
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