Aliança alvo de criticas, histórico mostra que PL e MDB já estiveram juntos em 5 das últimas 7 eleições em Mato Grosso
Alvo de críticas, ataques, ameaças e rupturas políticas, a união entre PL e MDB nas eleições estaduais de Mato Grosso não é uma novidade. Nas últimas sete disputas, os dois partidos estiveram juntos em cinco. Neste período, as siglas estiveram liderando candidaturas ou fazendo parte de coligações de chapas conservadoras e progressistas, o que corresponde a um histórico político muito mais pragmático do que ideológico.
A avaliação é da cientista política e doutora em Sociologia Christiany Fonseca. Segundo ela, a possibilidade de PL e MDB caminharem juntos em 2026 não representa uma ruptura com a trajetória eleitoral de Mato Grosso, mas ocorre em um ambiente político diferente, marcado pela polarização nacional.
“Existe muito mais continuidade do que ruptura”, afirma Christiany. Para ela, o histórico demonstra que as coalizões em Mato Grosso foram construídas, ao longo do tempo, muito mais a partir da formação de maiorias, da força das lideranças regionais e da viabilidade dos projetos políticos do que por alinhamentos ideológicos rígidos.
O histórico, na avaliação de Christiany, ajuda a explicar por que a atual resistência à aproximação entre as duas legendas não pode ser analisada apenas pela ótica ideológica. “O discurso ideológico ganhou muito mais peso na política brasileira, mas não alterou a lógica estrutural de funcionamento do sistema político. A polarização transformou muito mais a narrativa das alianças do que a lógica das alianças”, afirma, em entrevista ao RD News.
Em 1998, MDB e PL fizeram parte de uma coligação composta por 13 partidos, liderados pelo candidato ao governo Júlio Campos, do PFL, partido que deu origem ao Democratas e, posteriormente, ao União Brasil. Enquanto o MDB, à época ainda PMDB, integrou a chapa majoritária com Carlos Bezerra como candidato ao Senado, o PL não indicou nenhum nome.
Tanto Campos quanto Bezerra acabaram derrotados nas disputas, perdendo para Dante de Oliveira (PSDB) e Antero Paes de Barros (PSDB), respectivamente.
Quatro anos mais tarde, PL e PMDB se dividiram no processo eleitoral e terminaram derrotados na disputa ao comando do Palácio Paiaguás para o produtor rural Blairo Maggi (PPS). Enquanto o PL apoiou a candidatura de Alexandre César (PT), o PMDB esteve ao lado de Antero de Barros (PSDB).
Já em 2006, os dois partidos estiveram unidos em torno do projeto de reeleição de Blairo. O PMDB, inclusive, indicou como candidato a vice na chapa Silval Barbosa. Naquela disputa, a coligação formada por 12 partidos conquistou também a vaga ao Senado, com Jayme Campos pelo PFL.
No fim daquele ano, por conta da cláusula de barreira, o PL acabou se unindo ao Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona), criando assim o Partido da República (PR). A sigla só voltou a se chamar Partido Liberal (PL) em 2019, após um pedido formulado pela direção e aceito pela Justiça Eleitoral.
Em 2010, Silval Barbosa (PMDB), que assumiu o governo com a renúncia de Blairo, à época no PR, para disputar o Senado, conquistou a reeleição em primeiro turno. A disputa foi a primeira em que as duas siglas indicaram candidatos para a chapa majoritária. Naquele ano, Silval e Blairo se sagraram vencedores.
Com o fim da era Silval, PMDB e PR seguiram juntos na chapa liderada pelo médico Lúdio Cabral (PT). Enquanto o PMDB indicou Teté Bezerra como candidata a vice do petista, o PR lançou Wellington Fagundes ao Senado.
Lúdio foi derrotado pelo então senador Pedro Taques (PDT). Já Wellington venceu a disputa, favorecido pela desistência de Jayme de tentar um novo mandato no Senado.
Nova ruptura
Em 2018, ocorreu a segunda disputa em que os dois partidos não estiveram juntos. Wellington tentou o comando do Palácio Paiaguás, enquanto os emedebistas — um ano antes o PMDB voltou a ser MDB — caminharam com Mauro Mendes (União), eleito em primeiro turno. Por fim, em 2022, o PL apoiou a reeleição de Mauro e garantiu um novo mandato para Wellington no Senado.
A aliança daquele ano é justamente um dos exemplos utilizados por Christiany para mostrar que a atual polarização não apaga o histórico de aproximações entre os partidos. PL e MDB integraram a mesma coligação que reelegeu Mauro Mendes, tendo Otaviano Pivetta (Republicanos) como vice-governador.
“Portanto, a incompatibilidade apresentada hoje como praticamente intransponível não impediu que essas mesmas forças políticas compartilhassem o mesmo palanque há apenas quatro anos”, pontua.
Para a cientista política, o que mudou em 2026 é menos a disposição dos partidos para negociar e mais a necessidade de justificar essas negociações diante de um eleitorado mais polarizado. “As alianças passaram a exigir narrativas capazes de lhes conferir legitimidade diante de um eleitorado muito mais polarizado e atento à coerência entre discurso e prática”, explica.
Críticas de prefeitos
É nesse ambiente que as críticas de setores do PL à aproximação com o MDB ganharam força. Christiany avalia que o bolsonarismo ajudou a transformar a direita brasileira ao substituir parte da tradição pragmática das alianças por uma lógica de identidade política mais rígida.
Nesse contexto, lideranças do PL passaram a sustentar que uma aliança com o MDB equivaleria a apoiar o PT, pelo fato de o partido integrar a base de sustentação do governo Lula no plano nacional. Para Christiany, porém, o MDB não é uma legenda programaticamente de esquerda, mas um partido de centro, historicamente marcado pelo pragmatismo, pela heterogeneidade interna e pela ocupação de espaços de poder.
A cientista política também vê uma dimensão estratégica nas críticas à composição. Segundo ela, os prefeitos das três maiores cidades administradas pelo PL — Abilio Brunini, em Cuiabá; Flávia Moretti, em Várzea Grande; e Cláudio Ferreira, em Rondonópolis — já haviam sinalizado, em momentos distintos, proximidade ou preferência pelo projeto de Pivetta antes de a possível aliança entre PL e MDB ganhar força.
“Há também uma disputa concreta de projetos políticos”, afirma. Para ela, uma eventual composição entre PL e MDB altera o desenho eleitoral que vinha sendo construído por essas lideranças e pode dificultar a consolidação do projeto que parte delas já vinha defendendo.
As disputas municipais de 2024 também são utilizadas por integrantes do PL como argumento contra a aproximação com o MDB. Em Rondonópolis, Cláudio Ferreira derrotou Thiago Silva, do MDB. Em Várzea Grande, Flávia Moretti venceu Kalil Baracat, também do MDB.
Para Christiany, entretanto, transformar esses confrontos locais em impedimento para uma aliança estadual seria uma justificativa frágil. A própria recomposição entre Mauro e Abilio durante a eleição municipal, segundo ela, demonstra como os antagonismos locais podem ser superados quando muda a arena eleitoral. O governador apoiou Botelho no primeiro turno, quando Abilio era adversário direto de seu grupo político, mas passou a apoiar o liberal no segundo turno.
“Se o fato de ter estado em palanques adversários em 2024 fosse suficiente para inviabilizar uma aliança posterior, a própria aproximação entre Mauro Mendes e Abilio no segundo turno seria difícil de explicar”, afirma.
Para a cientista política, as eleições municipais e estaduais obedecem a lógicas diferentes. Enquanto nos municípios predominam lideranças locais, disputas personalizadas e interesses específicos de cada cidade, na eleição estadual entram em cena a necessidade de reunir diferentes regiões, formar chapas competitivas, eleger bancadas e construir condições de governabilidade.
Conforme Chrtisiany, a política mato-grossense continua preservando uma tradição de coalizões amplas e pragmáticas, mas agora essas alianças precisam ser acompanhadas de uma narrativa capaz de justificá-las perante um eleitorado muito mais atento à identidade política.
“Interpretar essa possível composição apenas pela ótica da polarização nacional significa ignorar a história política de Mato Grosso. Da mesma forma, tratá-la como uma simples repetição do passado também seria insuficiente”, conclui.
Fonte: RD News/Gláucio Nogueira

