Artigo-Opinião

Mato Grosso não pode normalizar o feminicídio Por Janaina Riva

Estamos no Agosto Lilás, mês em que o Brasil inteiro se mobiliza pelo fim da violência contra a mulher. Em 2026, essa campanha ganha um peso ainda maior: a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Duas décadas de uma lei que deveria ser sinônimo de proteção. Mas é justamente neste mês, quando fóruns e órgãos públicos se iluminam de lilás e o país celebra o avanço legal conquistado em 2006, que os números de Mato Grosso deveriam nos fazer parar e perguntar, para quem essa proteção está funcionando de verdade?

Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 deveriam nos tirar o sono. Enquanto o total de homicídios de mulheres caiu em Mato Grosso, os feminicídios subiram 11%. Passamos de 47 para 54 casos em um ano. Hoje, mais da metade das mulheres assassinadas no estado morre por um único motivo…ser mulher. É o terceiro maior índice do país, atrás só do Acre e de Rondônia.

Esse dado não é estatística distante. É vizinha… é colega de trabalho… é parente. É a mulher que registrou boletim de ocorrência e não foi protegida a tempo. É a que nunca chegou a denunciar porque tinha medo de ser julgada, ou porque não sabia a quem recorrer.

E infelizmente não precisamos ir longe para ver esse número virar rosto e nome. Neste domingo (09), Sirlei Gomes de Oliveira, de 42 anos, foi morta a tiros pelo próprio marido, Diogo Tavares, em uma fazenda na zona rural de Vila Bela da Santíssima Trindade. Segundo a Polícia Civil, o casal tinha um histórico de violência doméstica, mas Sirlei nunca havia denunciado as agressões. É exatamente o retrato que os dados descrevem – uma mulher que resistiu sozinha ao medo por anos, sem rede de proteção, até não ter mais para onde correr.

O que mais me preocupa nesse levantamento não é só o número final, é o caminho que leva até ele. Feminicídio quase nunca é um crime isolado. Vem depois de ameaça, de agressão, de perseguição, de medida protetiva descumprida. E foi exatamente isso que os dados de 2025 mostraram, as tentativas de feminicídio cresceram quase 6% em Mato Grosso, chegando à segunda maior taxa do Brasil. A violência psicológica também disparou, com aumento de mais de 70%. São sinais de alerta que o poder público não pode ignorar, porque cada um desses casos é uma chance de intervir antes que termine em morte.

Na Assembleia Legislativa, defendi pautas de proteção à mulher e à criança porque acredito que política não se faz só com discurso. Faz-se com fiscalização de medida protetiva, com rede de acolhimento que funcione de verdade, com delegacia especializada que tenha estrutura, com Justiça que não deixe processo parado na gaveta enquanto o agressor continua rondando a vítima.
É por isso que, se eleita senadora, uma das minhas bandeiras será a prisão perpétua para estupradores e pedófilos reincidentes. Mas sei que só a lei penal não resolve. Precisamos de prevenção, de educação, de investimento em segurança pública dentro dos municípios, principalmente no interior, onde muitas vezes a mulher em situação de risco não tem nem para onde correr.

Mato Grosso não pode se acostumar a aparecer nesses rankings. Cada número desse anuário representa uma vida que poderia ter sido salva com política pública séria e continuada. Esse é o compromisso que carrego: de não deixar essa pauta esfriar depois que a notícia sai do noticiário, e depois que agosto termina. A segurança da mulher mato-grossense precisa estar na prioridade orçamentária, os 365 dias do ano, não só no discurso de campanha ou no mês da campanha lilás.

Janaina Riva é bacharel em Direito, deputada estadual mais votada de Mato Grosso, presidente do MDB-MT e pré-candidata a senadora.

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