Descanse em paz, Pedro! Por Eduardo Gomes de Andrade

Mato Grosso enfrenta duas situações adversas. Sua representação no Congresso Nacional é fraca e a Imprensa cuiabana com uma exceção aqui, ali e acolá foge dos temas polêmicos envolvendo a estrutura do poder político. Nesse quase vácuo político e jornalístico o deputado federal Nelson Barbudo (PSL) atacou a memória do bispo prelado emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, e por extensão a população do Vale do Araguaia, onde se localiza aquela prelazia – numa entrevista ao site obomdanoticia.

A fala do parlamentar contra a memória do prelado foi carregada de ódio, rancor,  destempero verbal e injustificada sob todos os aspectos.

Pedro – era assim que ele gostava de ser chamado – foi evangelizador claretiano por mais de 49 anos no Vale do Araguaia. Sua assumida opção pelos pobres e os indígenas não era mero apelo pra alicerçar sua ideologia de esquerda. Tanto assim, que seu corpo foi levado à cova simples por índigenas araguaianos, e ao invés de uma tumba com epitáfio em bronze, seu caixão foi coberto pela areia da margem do rio Araguaia no cemitério humilde onde no começo da colonização de São Félix do Araguaia eram sepultados peões, prostitutas e índigenas. Há quase meio século, quando chegou àquele lugar tinha as mãos tão vazias quanto ao partir para sua última morada. Seu inventário é o conjunto de uma obra cristã, filosófica, poética, moral e que deve inspirar todos os que buscam a verdadeira justiça social muito acima dos conceitos ideológicos.

A memória de Pedro não pode ser vilipendiada por ninguém. Tanto quando o prelado, o Vale do Araguaia também merece respeito.

Barbudo, o político que ofendeu a memória de Pedro, cumpre seu primeiro mandato eletivo. Antes de 2018 era figura desconhecida, um rosto na multidão. Nunca o vi em nenhum movimento em defesa do agronegócio que ele agora jura defender. Sua eleição nos transporta ao começo dos anos 1970, quando se dizia que o MDB elegia até poste – pela vontade incontida de votar contra o poder dominante. Esse e outros deputados, senadores e governadores Brasil afora foram eleitos pela cascata eleitoral que votou em Jair Bolsonaro para presidente da República. Transcorrido quase meio século – tempo igual ao da presença de Pedro no Vale do Araguaia – o poste continua sendo eleito.

Na Assembleia Legislativa três deputados se indignaram contra a fala de Barbudo. Os deputados Dr. Eugênio (PSB), Allan Kardec (PDT) e Elizeu Nascimento (DC) apresentarm Moção de Repúdio contra ele. No Vale do Araguaia o sentimento é de revolta e indignação.

Que Barbudo cumpra seus compromissos apoiando Bolsonaro, que exerça o mandato com total independência, inclusive de expressão e de inviolabilidade na tribuna, mas que tenha a dignidade de se desculpar por sua fala.

O ser humano é falho, mas Deus lhe concede o direito de se aprimorar. Barbudo deveria se espelhar nos grande feitos dos congressistas mato-grossenses ao invés de atacar a memória de um vulto da dimensão de Pedro. No Congresso o Senador Valdon Varjão foi autor da lei que proíbe a venda de sangue, hemoderivados, órgãos e pele: o senador Júlio Campos foi autor da Lei de Proteção à Testemunha; a senadora Serys Slhessarenko criou o embrião da Lei da Delação Premiada; o deputado Dante de Oliveira foi o pai da Emenda das Diretas; e o deputado Carlos Bezerra instituiu a PEC das Domésticas

No Congresso há exemplos que Barbudo pode seguir. No Vale do Araguaia, também, bastar trocar a arrogância, a petulância e a isanidade verbal pela prática do amor e do respeito que sempre guiaram Pedro.

Descanse em paz, Pedro!

Eduardo Gomes de Andrade – Editor de Boamidia

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