Nova onda de covid-19 em Manaus contraria imunidade de rebanho

A cidade de Manaus, no Amazonas, a maior da Amazônia brasileira, fechou bares e praias em rios para conter uma nova onda de casos de coronavírus.

A tendência ameaça contrariar teorias de que a região seria um dos primeiros lugares do mundo a ter alcançado a chamada imunidade de rebanho, quando grande parte de uma comunidade fica imune a uma doença e sua disseminação se torna menos provável.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) sugeriram que a queda drástica de mortes por covid-19 em Manaus indicava a imunidade coletiva funcionando, mas eles também acreditam que os anticorpos da doença após a infecção podem não durar mais do que alguns meses.

Autoridades locais decidiram na sexta-feira (25) proibir festas e outras reuniões de pessoas por 30 dias, restringindo também horários de restaurantes e shoppings, em um novo revés na cidade de 1,8 milhão de pessoas depois que o pior da pandemia parecia ter ficado para trás.

Entre abril e maio, tantos moradores de Manaus estavam morrendo de covid-19 que os hospitais entraram em colapso e os cemitérios não conseguiram cavar covas com a rapidez necessária.

A cidade nunca impôs um lockdown completo. Negócios não essenciais foram fechados, mas muitos simplesmente ignoraram as orientações de distanciamento social.

Em junho, as mortes caíram inesperadamente. Especialistas em saúde pública passaram então a questionar se tantos moradores haviam pegado o vírus que não havia mais ninguém para ser infectado.

Uma pesquisa publicada semana passada no medRxiv, um site que distribui artigos não públicos sobre saúde, estimou que entre 44% e 66% da população de Manaus havia sido infectada entre o auge da pandemia, em meados de maio, e agosto.

O estudo, do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, testou um novo banco de sangue recentemente doado para anticorpos contra o vírus e usou um modelo matemático para estimar os níveis de contágio.

A alta taxa de infecção sugeria que a imunidade de rebanho havia levado a uma dramática queda no número de mortes e casos, segundo o estudo.

Enterros e cremações diárias caíram de um pico de 277 em 1º de maio para apenas 45 em meados de setembro, segundo a prefeitura. A contagem diária de mortes por covid-19 na cidade, que atingiu o auge de 60 em 30 de abril, segundo dados oficiais, caiu para apenas dois ou três por dia ao fim de agosto.

Agora, os números voltaram a crescer.

A pesquisadora que liderou o estudo, Ester Sabino, não quis dar entrevista porque seu trabalho sobre a imunidade de rebanho de Manaus aguarda a revisão por pares antes de ser publicado.

Autoridades alertaram moradores de Manaus que eles estavam ignorando o vírus e que havia o risco de uma segunda onda de contágio devido à ausência do uso de máscaras, bares lotados e festas. Praias em rios de Manaus onde festas rave estavam sendo realizadas foram fechadas.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgilio, culpou o presidente Jair Bolsonaro, que segundo ele minimizou a gravidade da pandemia ao encorajar pessoas a retornarem à vida e ao trabalho normalmente ao invés de esperarem o desenvolvimento de uma vacina.

“O governo precisa levar a situação a sério e falar a verdade. Se disser que não tem problema, isso encoraja as pessoas a ignorar nossos decretos”, afirmou o prefeito em entrevista à Reuters.

O epidemiologista André Patricio Almeida, do Hospital Adventista de Manaus, afirmou que os casos estão crescendo novamente principalmente entre os jovens, pessoas mais saudáveis que vão a bares e mostram sintomas leves, mas com frequência passam a doença a parentes mais velhos que precisam ser tratados em hospitais.

Almeida disse que pouco se conhece sobre a covid-19 e se a reinfecção é possível para verificar se Manaus alcançou a imunidade de rebanho, mas ele acredita que alguma imunidade de curto prazo provavelmente foi atingida.

O estudo da Universidade de São Paulo afirmou que os anticorpos contra coronavírus parecem diminuir após apenas alguns meses, o que pode explicar o ressurgimento de casos em Manaus.

“Algo que ficou claro em nosso estudo – e que também está sendo mostrado por outros grupos – é que os anticorpos contra a Sars-Cov-2 decaem rapidamente meses depois da infecção”, disse uma das autoras do estudo, Leis Buss, em um comunicado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que acompanhou o artigo.

Fonte:
R7

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