“O DIABO VESTE TOGA”- Por Joel Ricardo Bedin

É fim de festa… as luzes se ascendem… as máscaras caem. A penumbra já não oculta as faces!

À luz, é possível enxergar os últimos foliões, vibrando embriagados, enquanto chutam um pobre pedinte, que chegara pedindo por socorro… Trazia consigo um livreto, que pude identificar na capa um Brasão de Estado,… e parte de uma escrita no Brasão.. Republica Federativa do…..”… Sim estava rasgada!

Enquanto era chutado sob gargalhadas, ainda sobre a mesa impecável… Lagostas e vinhos… à espera do banquete.

Impossível entender o apetite, num ambiente onde o brilho da purpurina, ainda está entre as vísceras espalhadas, possivelmente de outros que entraram no recinto e foram esquartejados no ritual macabro.

No balcão, debruçado em prantos, o antes anfitrião da casa, enxuga as lágrimas numa bandeira Verde e Amarela, com uma mancha de sangue no peito… Talvez chorava porque os abutres do banquete de lagostas, tivessem esquartejado os demais participantes ou, pelos três fortes anjos pendurados que serviam de alvo na competição de dardos . O único consolo, vinha no silêncio das libras de uma aura angelical.

Ao lado de fora, ouve-se alguns gritos, contudo as gargalhadas da legião, impedem ecoar as vozes de simples mortais…

Vestidos com a cor da asa da Graúna, ainda zombam de outros pares com a mesma veste, talvez por serem de patente inferior ou por não seguirem a mesma jurisprudência, também foram ceifados pelo ritual e suas obras oferecidos em sacrifício.

Ando e vejo mãos se levantando pedindo socorro… olho e meus sapatos estão tingidos de rubro… O fétido ambiente me faz colocar pra fora a última ânsia… vomito a última gota sobre os vermes numerosos sob o capacho e sigo em frente.

Me deparo com uma estátua, de uma mulher cega com uma balança na mão, que já fora venerada noutros tempos, agora usada como alegoria, com adereços anti-cristãos e sobre a balança, de um lado um maço de dinheiro sujo e do outro duas cabeças decepadas, possivelmente, um procurado por denunciar a seita e outro julgado por ter dado razão ao primeiro.

A festa aumenta, é estendido sobre o vômito, um tapete vermelho, onde recebem outros eufóricos empunhando foice e martelo, antes encarcerados, mas permitidos a participar da comemoração macabra… Afinal, o critério da festa fora destruído e se limita a mera convicção dos Demônios.

Nas mãos do Líder, uma gadanha… a Toga esconde as costas e ainda, sobre o colo, um prato de uma farinha branca, trazida como oferenda por outros convidados, antes também encarcerados, mas que tiveram seus adornos dos tornozelos subtraídos pelas mesmas convicções fétidas dos mesmos demônios.

Havia dois líderes de dois grandes grupos, um de 513 e outro de 81, que a julgar pelo esterco em suas vestes, saíram do chiqueiro e cantavam abraçados a Lúcifer, em comemoração ao caos.

Num ato de desespero, me lanço pra fora… onde alguns poucos ainda gritam palavras de ordem… outros oram… não há luz … as trevas são apenas quebradas pelas poucas velas de promessa, que servem como um sinalizador para que o demônios os encontrem e os ofereçam também no altar macabro do sacrifício.

Ao longe, vejo um outro grupo, de joelhos ao lado de fora de um muro com dois sentinelas de armas na mão… suplicando socorro e invocando grandes máquinas metálicas destruidoras que rastejam sobre correntes.

Elas permanecem imóveis… Os sentinelas como estátuas olhando para o vazio, como se estivessem querendo não ver ou ouvir súplicas… Talvez impedidos de agir, por almas que ali propositalmente foram infiltradas, assim como na libertação de Barrabás.

Ouço trombetas, e ao olhar pro alto, vejo um pano colorido nas cores da Mata, das riquezas, do céu e dos rios… Noto faltar a cor da paz, que por óbvio fora suprimida e seus retalhos usados nas tochas que iluminam o Submundo da festa dos Demônios.

(Por Joel Ricardo Bedin)

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