“Sociedade sem escolas”: educação em tempos de pandemia. Por Eliane de Jesus

As escolas estão baseadas na suposição de que há um segredo para tudo nesta vida; de que a qualidade da vida depende do conhecimento desse segredo; de que os segredos só podem ser conhecidos em passos sucessivos e ordenados.

Ivan Illich, 1973

Passados quase um ano em que foi publicado nesta mesma página, o artigo “Para que serve a escola? Diz aí: porque a educação incomoda tanto? ”. Vivemos hoje momentos incertos no tocante aos rumos da educação. Se no texto anterior o cenário apresentado colocava em xeque as escolas e o trabalho dos professores, atualmente nos deparamos com preocupações inerentes à relevância do atendimento escolar e cumprimento dos seus currículos.

Em se tratando de educação, já me deparei com discursos salvacionistas: “tem que estudar para ser alguém na vida! ” [curiosamente eu já sentia que era alguém]; encontrei ainda, críticas desapiedadas à escola: convenhamos que sempre foram espaço de contradições. E hoje, nos deparamos com uma situação em que para além de qualquer crítica ou ataque do qual ela seja alvo, a ideia de uma “sociedade sem escolas”, parece inadmissível.

Embora as escolas por vezes sejam tidas como “templos do conhecimento” consinto com Ivan Illich que “a maior parte dos nossos conhecimentos adquirimo-los fora da escola” (1973). As instituições escolares cumprem sua função nessa sociedade, assim como a religião e a família, desempenhando o papel que lhes é atribuído. Por vezes adorada, outras desaprovada.

Assim, não venho em defesa ou crítica da escola, pretendo apenas convidar; se preferem provocar o leitor a refletir sobre a necessidade da escolarização no momento pelo qual estamos passando. Afinal, “ensino escolar” não é o mesmo que aprendizagem; ou mesmo sua garantia. Estamos a todo o tempo aprendendo, o melhor exemplo disso são as crianças e seu espanto frente a novidade diária que a vida apresenta. Ao contrário do que se possa defender a escola não é detentora do saber, ela apenas o hierarquiza.

Ainda que sejam usadas como sinônimos: “escola e educação” não são a mesma ou uma e só coisa. A educação acontece em diferentes espaços sociais e se dá em inúmeros momentos.

As escolas institucionalizam o saber e operam em meio a metodologias de ensino que se pressupõe dar-se de modo ordenado. Obviamente por lidar com o humano, as relações de aprendizagem tendem a ser muito mais complexas do que meros processos de escolarização; já que no final todo esse movimento é operado nas relações entre professores e alunos. Infiro que aqui reside o grande mérito desse espaço: as relações humanas que ali se estabelecem, os processos de socialização, a mediação e troca de experiências. Tudo isso, não pode ser mensurado, e certamente não o será apenas por meio da disponibilização de conteúdos escolares.

Tenho me deparado com as tentativas das escolas na implementação de alternativas para cumprir seu calendário e demanda curricular; preocupação dos professores e gestão em responder de modo responsivo ao panorama que vivenciamos; e ainda com questionamentos e por vezes desamparo dos pais frente ao requerimento de sua efetiva atuação nessa espécie de “educação à distância” que tenta cambaleante compensar conteúdos escolares. Mas, seria essa a melhor saída?

Talvez o que precisamos seja justamente esse afastamento para percebermos a importância das múltiplas aprendizagens que não se limitam aos muros da escola. Para nos determos por mais tempo nas “coisas desimportantes” ao modo como coloca o poeta Manoel de Barros[i]. Essa interrupção do atendimento nas escolas pode causar a sensação de desamparo ou desesperança, mas, possibilita ainda a abertura para que a inventividade da criança apareça e sua potência criativa desponte; permitindo que notemos o universo de possibilidades e aprendizagem experimentadas fora de seus portões.

Quiçá, sairemos desse cenário de dor e insegurança com olhar mais aguçado para as sutilezas da vida. Compreendendo a importância da educação e das escolas não só por aquilo que colocam a disposição, mas pelas complexas e significativas experiências que se vivenciam no seu cotidiano. Desejo força e esperança para todos nós.

Cuidem das nossas crianças

Eliane de Jesus: “Mestra em Educação pela UFMT, atuando na Educação Infantil do município de Porto dos Gaúchos”

 

Referências

ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. São Paulo: Editora Vozes, 1973.

BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

 

[i] p.399, 2010.

 

 

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