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Patriotismo fora de hora. Por Vicente Vilardaga

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Não há motivos para grandes comemorações. A floresta amazônica pega fogo, a economia está estagnada, corta-se verba para o saneamento e há milhões de brasileiros, incluindo os desempregados, que não estão a fim de festa. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro só pensa nisso: em fazer a maior desfile do dia da Independência desde a ditadura.

Para criar um ambiente de enfrentamento, convoca seus apoiadores a vestir verde e amarelo para defender a Amazônia e, no embalo ufanista, anuncia uma semana de liquidações no comércio para acelerar o consumo, a Semana do Brasil. O projeto de marketing de Bolsonaro se ampara num patriotismo oportunista e apelativo que tenta esconder as mazelas atuais.

Com uma só tacada, ele reforça um fator de conflito entre as pessoas em torno da cor da roupa, foge de suas responsabilidades sobre a disseminação da cultura do ódio que se espalha pelo País e oferece, em troca, circo para as massas. Ao que tudo indica, Bolsonaro quer criar uma nação de robôs, de gente sem estudo, sem pesquisa e sem direitos básicos, mas acreditando bobamente que esse é um país que vai para frente. No seu mundo ideal, todos estariam alegres, assoviando o hino nacional pelas ruas.

Foi a primeira vez desde a posse que Bolsonaro convidou a população a vestir verde e amarelo para demonstrar o apoio às suas políticas destrambelhadas. E o argumento é defender a floresta. Não de seus destruidores reais, pecuaristas e madeireiros, por exemplo, mas de uma difusa ameaça estrangeira que vem de países europeus ou até de vizinhos sul-americanos.

Diante da reprovação internacional sobre a sua atuação – há a possibilidade de seu discurso na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), dia 24 de setembro, ser boicotado – ele faz um esforço plebiscitário para verificar sua aceitação pública. Bolsonaro quer checar, evidentemente, se a guerra cromática das ruas reflete as últimas pesquisas de opinião do Datafolha, que mostram sua popularidade despencando.

Se concorresse hoje com Fernando Haddad, do PT, perderia a eleição. A convocação de apoiadores com as cores da bandeira remete ao episódio do então presidente Fernando Collor, que pediu à população para vestir verde e amarelo, em 1992, quando corria contra ele um pedido de impeachment no Congresso. Em vez de seguir sua orientação, as pessoas se vestiram de preto. Esse protesto, impulsionado pelo movimento dos caras-pintadas, foi decisivo para que Collor caísse.

Teste no momento errado

“A gente apela para quem estiver em Brasília, quem porventura estiver no Rio de Janeiro, em São Paulo, que compareça de verde e amarelo. Eu lembro lá atrás que um presidente disse isso e se deu mal. Mas não é o nosso caso. O nosso caso é o Brasil, não é para me defender ou defender quem quer que seja. É para mostrar ao mundo que aqui é o Brasil, que a Amazônia é nossa”, declarou Bolsonaro, lembrando o caso de Collor, durante cerimônia no Palácio do Planalto em que lançou a sua Semana do Brasil, na terça-feira 3.

No caso de Collor, se tratava de um movimento decisivo, capaz de derrubá-lo. Para Bolsonaro, por enquanto, é só uma bravata patriótica e uma demonstração de força – ou fraqueza, dependendo do que acontecer sábado. De qualquer modo, os resultados de seu convite terão repercussão política e podem comprometer ainda mais sua popularidade.

Se forem consideradas as reações imediatas nas mídias sociais, ele vai perder a batalha de cores. Na quarta-feira 4 a hashtag #Dia7EuVouDePreto era trending topic (assunto mais comentado) no Twitter. Políticos de oposição e organizações de esquerda convocaram seus seguidores a usar preto. Além de se mostrarem revoltadas com a ausência de política ambiental do governo e por seu esforço para menosprezar o impacto dos incêndios na floresta, os usuários também lembraram dos cortes nas verbas para a educação e do desrespeito às minorias.

A União Nacional dos Estudantes (UNE), por exemplo, publicou “#Dia7EuVouDePreto contra a retaliação de Bolsonaro, que quer calar os estudantes que lutam pela Educação. Jair Bolsonaro deveria se preocupar com as universidades que estão fechando em detrimentos dos cortes de verbas. Dia 7 estaremos nas ruas, de roupa preta e cara pintada.”

“É para mostrar ao mundo que aqui é o Brasil, que a floresta amazônica é nossa” Jair Bolsonaro, presidente

Os ataques à ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que denunciou o encolhimento do espaço democrático no Brasil, também estimularam o uso do preto. Ela foi questionada violentamente por Bolsonaro, que ofendeu a memória de seu pai, o general Alberto Michelet Martinez, torturado e morto pela ditadura de Augusto Pinochet. Até a direita chilena e o presidente Sebastian Piñera se revoltaram com as palavras do presidente brasileiro. O governo do Chile vai enviar representantes diplomáticos para o Brasil, para protestar pessoal e formalmente contra as declarações indevidas. N

a prática, Bolsonaro evoca o patriotismo para tentar levantar o ânimo da população, mas sabota o Brasil internacionalmente e nos faz parecer um País de canalhas incapaz de respeitar o sofrimento alheio. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Instituto Vladimir Herzog irão denunciar o governo na ONU terça-feira 10, por conta dos retrocessos à democracia e por fazer apologia às ditaduras.

No cenário armado por Bolsonaro para anunciar seu pacote marqueteiro estavam estampadas três frases: “Semana do Brasil”, “Vamos valorizar o que é nosso” e “Pátria Amada Brasil”, frase do hino nacional. Poderiam estar “Ninguém segura esse País”, “Brasil, ame-o ou deixe-o” ou o célebre “Pra frente Brasil”, slogans que se popularizaram na primeira metade dos anos 1970, no governo de Emílio Garrastazu Médici.

Foi naquela época que se fez a festa de 7 de setembro mais grandiosa da história, nos 150 anos da proclamação da Independência, em 1972, quando 18 mil militares desfilaram só em São Paulo. Foi o período do milagre econômico e também o de maior violência repressiva do regime. Enquanto se matava nos porões da ditadura, o governo lançava mensagens patrióticas e promovia festas cívicas para encobrir seus desmandos.

Bolsonaro tenta recuperar esse passado tenebroso em meio ao desgaste político e ao desastre econômico e promete uma festa de 7 de setembro digna do regime militar. Mais de três mil soldados e oficiais desfilarão pela avenida. A segurança estará reforçada por atiradores de elite (snippers), que estarão posicionados nos prédios da Esplanada dos Ministérios. Assessores do presidente disseram que, com a festa de arromba, querem mostrar que a vitória eleitoral do chefe significa uma espécie de nova independência, associada à derrota dos partidos de esquerda. Pretende também reforçar sua defesa fantasiosa da soberania nacional.

Somente no tradicional desfile na Esplanada serão gastos R$ 971,5 mil, a maior parte na implantação de arquibancadas com capacidade para 20 mil pessoas. O dinheiro extra que o governo irá desembolsar na festa daria para pagar 2,5 mil bolsas de iniciação científica e contribuir para a pesquisa no País. O presidente estará acomodado na tribuna de honra ao lado da cúpula militar, incluindo os nove ministros do Exército. Haverá desfile de soldados, blindados, cavalarias e voos rasantes da Esquadrilha da Fumaça. Para os bolsonaristas será um momento inesquecível.

O presidente convidou várias personalidades para o desfile, entre elas o bispo Edir Macedo, dono da TV Record, que o abençoou recentemente no seu templo em São Paulo. “Ele estará conosco aqui, teremos personalidades religiosas e empresariais para nós comemorarmos o dia da nossa Pátria, do nosso Brasil”, disse o presidente. “Quem ninguém possa mais ter receio de falar: eu sou brasileiro”.

Há 120 anos, o conde Afonso Celso, um monarquista empedernido, lançou o livro “Por que me ufano do meu país”, em que defendia o imperativo do orgulho nacional como um caminho para o crescimento. Elogiava o gigantismo do Brasil, suas riquezas naturais e sua mestiçagem, mas, como Bolsonaro, escamoteava os dramas da civilização e esquecia da injustiça e da desigualdade gritantes que, desde sempre, afetam o Brasil. A verdade é que o orgulho patriótico não gera riqueza e nem cria empregos.

Black Saturday

Mesmo assim, inspirado nos americanos, Bolsonaro deu um tom pragmático ao seu projeto ufanista. Como se faz nos Estados Unidos, na semana de 4 de julho, data da independência local, o governo quer montar um circo de consumo na Semana da Pátria e atrelar seu patriotismo a uma iniciativa de mercado para impulsionar as vendas do comércio. O objetivo da Semana do Brasil é o mesmo de eventos como o Black Friday: estimular a economia a partir da oferta de descontos, promoções e benefícios aos consumidores. ”Um mês que não oferecia nenhuma data comemorativa passará a ter uma data de comércio e turismo”, comemorou Fábio Wajngarten, secretario especial da Comunicação. “O governo deu a ideia, deu a identidade visual e a gente está supercontente com as mais de 4500 empresas que se engajaram na iniciativa”.

Em meio a uma crise econômica, não será uma semana de aquecimento do comércio que vai salvar o Brasil ou mesmo dar um impulso para o País sair do marasmo. Se der certo, será uma marolinha. Fazem falta medidas estruturais que estimulem a produção industrial, a oferta de serviços de alto valor agregado e diminuam o desemprego, assuntos sobre os quais Bolsonaro não quer falar. Seu conceito de progresso é o da implantação de pastos sobre florestas queimadas. Sua economia ideal é agroextrativista. Há uma devastação ensandecida e ele acha que querem subtrair o território brasileiro e que a culpa é dos estrangeiros. Desde o regime militar não se via tanto empenho para aproveitar a efeméride da Independência e deflagrar um movimento cívico. Bolsonaro quer fazer um Black Friday verde amarelo promovido pelo governo. Mas seu Black Friday corre o risco de virar um Black Saturday.

Nos tempos dos caras pintadas

O movimento Caras-pintadas ocorreu em 1992 e foi decisivo para mudar a história do País e culminar no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Eleito em 1989, Collor se tornou impopular devido à situação econômica do Brasil e, principalmente, às denúncias de corrupção feitas por seu próprio irmão. Pedro Collor revelou o “esquema Collor-PC”, pelo qual o ex-tesoureiro da campanha Paulo César Farias comandou uma vasta rede de irregularidades financeiras. À época rejeitado pela maioria da população, o presidente pediu que manifestantes fossem às ruas contra o impeachment vestidos de verde e amarelo, mas, em protesto, milhares de estudantes preferiram pintar as ruas e os rostos de preto.

Vicente Vilardaga

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