Juara sem porteiras, território de povos hospitaleiros – Parte 1. Por Luciano Olivetto

Em meio a essa pandemia do Coronavírus muitos outros temas tem se tornado pauta diariamente, confesso que fico até meio confuso, tendo em vista que não é possível apreciar todos os assuntos. Na verdade, é meio que enlouquecedor.

Segue alguns exemplos: teste rápido funciona, teste rápido não funciona, tomar cloroquina, não tomar cloroquina, tomar ivermectina, não toma ivermectina, sai de máscaras, não saí de máscaras, passa álcool em gel, fica em casa, saí de casa, aglomera, não aglomera, tá com gripe vai pro hospital, está com muitos sintomas e passando mal fica em casa, tem gente no caixão, tem pedra no caixão, morreu meu amigo, não era meu amigo, esquerdista safado, burguês safado, Juara Capital do Gado, Gado do Bolsonaro, Jumentos do Lula, Abre porteira, fecha porteira, fiscal fecha comércio, fiscal aglomera, filho de pobre fica em casa, filho de rico vai para escola, coronavírus veio da China, coronavírus é só uma gripezinha, a economia não pode parar, vai pra igreja, não vai pra igreja, só o setor de eventos e turismo pode parar, posso receber auxílio emergencial, não posso receber auxílio emergencial, meu nome tá na lista, sou cidadão de bem mas dou meu jeitinho, alguém está usando meus documentos e assim a vida segue…

Sei que tudo isso pode parecer uma loucura mas essa a realidade de todos que usam o facebook e o whatsapp. E o pior, muitas pessoas acreditam em tudo o que leem, tomam isso como verdade absoluta e claro, quem pensa diferente, não é digno da fala. Hoje as pessoas falam muito, escrevem muito e pouco conversa, não há diálogo. Somos um bando de egoístas egocêntricos.

Entretanto eu me preencho em conhecer esse município, nossa economia, sobre saúde, educação, desenvolvimento e ocupação territorial, promoção do desenvolvimento econômico, geração e produção de energia (HU E PCHs), temas que tangem minha área de atuação no mestrado e agora no processo de doutorado, ou seja, para falar de algo ou alguém, nós precisamos de fato conhecê-lo.

Eu estou namorando Juara há 32 anos, desde que nasci, e tenho prazer em saber mais a cada dia desse município, por isso busco conhecer e saber mais a cada dia, através de nomes, dados, indicadores, história, entre outros itens que importam bastante.

Por ser professor e ter a grande missão de ENSINAR, e por ter que escrever sobre Juara em meus artigos científicos, acabei tendo a necessidade e privilégio de estudar a história do Vale do Arinos para compreender a magnitude do maior município do Vale do Arinos, em território (mais de 22.000 km²), população superior a 32.000 habitantes, hora dividido em três distritos (Catuaí, Águas Claras e Paranorte) e a cidade de Juara, com arrecadação pública anual acima de 100 milhões de reais (2019), caminhando para previsão de 115 milhões em 2022.
Município com grande diversidade cultural de crenças (evangélicos, católicos, protestantes, umbandistas, espíritas e também sem religião), município que investiu no pequeno comércio, plantou e colheu café, explorou madeira, cresceu através da distribuição e venda de terras (tempos dos saudosos José Olavo Gonçalves e Zé Paraná).
Entretanto ressalto que esse território quando “aberto” e “ocupado” no movimento desenvolvimentista da década de 70 e 80 “Integrar para não entregar” já era habitada pelos povos indígenas Apiaká, Munduruku, Kayabi e Rikbaktsa. Comunidades tradicionais que muitos contribuíram e contribuem para o que é nosso município hoje, em cultura, economia e diversidade.

Município que fortaleceu a Agricultura Familiar através dos assentamentos rurais de até 20 hectares, promovendo a produção de leite e itens básicos da mesa do povo dessa terra.

Hoje percebe-se que muitas dessas pequenas áreas foram compradas por “grandes” produtores, mas alguns pequenos ainda são RESISTÊNCIA e permanecem lá.

Digo que Juara é o exemplo da diversidade e da diferença: recebeu igual pretos e brancos, evangélicos e católicos, mineiros, nordestinos, paranaenses, gaúchos, catarinenses, orientais e ocidentais, indígenas, ribeirinhos e em comum, pobres, quando me refiro aos colonizadores, hoje alguns grupos desconhecem isso.
A história mostra que todos que chegaram em Juara, tinham normalmente a mesma condição econômica de investimento, que na época de 70 e 80 (Século XX) era o suor do próprio trabalho, se nós reclamamos das estradas de hoje, vocês nem imaginam as da época.

Esse grande município (só quem andou da Catuaí a Paranorte sabe) também com o passar dos anos tornou-se referência na pecuária, pela qualidade da terra, água e condições climáticas favoráveis banhados pelo Rio Arinos, Rio do Sangue, Baixo do Teles Pires, Alto do Teles Pires e Alto do Juruena. Pecuária que ao longo de 3 décadas tornou-se referência em melhoramento genético, são muitos os exemplos, cito um (Fazenda Bama), vale referendar o carinho que esse grande grupo atende o pequeno e o médio, como já ouvi relatos, vendem sua genética com atenção, respeito e cuidado.

Cultura essa desenvolvida por pequenos, médios e grandes produtores, cada um com seu mérito no processo de construção social e econômica desse município e que no início do ano 2000 (Século XXI), passou a se preocupar com a questão ambiental, promovendo o reflorestamento de áreas desmatadas (em pequena escala, tendo em vista a preocupação com o colapso do setor) e para preservação das margens dos rios, para que não falte água para os animais.

Mas surge o questionamento, como um município localizado na região Centro-Oeste do Brasil, na porção noroeste do estado, inserido no Bioma Amazônia e na Amazônia Legal (IMEA, 2017; IBGE, 2004), com essa terra vermelha em alguns pontos e cheia de pedras em outros, consegue abarcar tamanha diversidade cultural, econômica, receber pessoas tão diferentes e se desenvolver socioeconomicamente ao longo dos anos?

Para isso precisamos retornar a década de 70 (século XX) e fazer a leitura do artigo dos colegas professores Reginaldo e Edvane Josefá dos Santos, que escreveram a história da primeira escola de Juara, hoje Escola Oscar Soares, qual através do Programa Mobral, com o principal objetivo erradicar o analfabetismo e que no ano de 1974 foi reconhecida como Escola Estadual, levou conhecimento a crianças, jovens e adultos. Vale reconhecer o trabalho do Sr. Roque Buchelt, o primeiro professor da escola, imagina os desafios da época. Grande homem.

Sabe o porque de uma escola, as famílias precisavam que seus filhos estudassem para permanecerem na região, então o colonizador e pioneiro Comendador José Pedro Dias que entendeu essa necessidade e usou como estratégia para promover a permanência das famílias no município, então cedeu a primeira sala 6 por 6. Outro grande Homem.

Ou seja, concluímos que a educação é a principal alternativa para promoção do então conceito de desenvolvimento da época. E desde então a escola recebeu muitos e muitos novos alunos, novos professores e formadores, que hoje refletem nos ideais e nas ideias de cada cidadão e cidadã Juarense, tenha nascido aqui ou não.
Escolas que formaram os hoje agricultores familiares, agricultores, pecuaristas, professores especialistas, médicos, engenheiros, donos e donas de casa, empreendedores, entre as mais variadas profissões e modelos de vida. Escolas que fizeram da sociedade crítica, que ensinou além de português e matemática, cidadão conscientes que lutaram para ter uma Universidade Aberta e Universidade Pública.

Pena que em alguns momentos teve gestores e grupos incompetentes que não abraçaram um campus da Universidade Federal de Mato Grosso e um Curso de Direito para a Universidade do Estado de Mato Grosso. Sim, eu sei essa parte da história que muitos não contam. E espero ter a oportunidade de escrever um artigo sobre isso.

Agora voltando ao assunto economia de Juara, já no início de 2014, o município de Juara começou com seu despertar para a Agricultura em larga escala, com a produção de arroz, milho e logo em 2015 os primeiros passos para a produção de soja. Ou seja, a produção de commodities agrícolas em grande escala, começou há menos de uma década.

Entretanto vale ressaltar que em 2022 já teremos uma enorme produção de algodão (olha a MT 220 sendo asfaltada) que será feita por grandes investidores, não por esses que vivem aqui hoje, e que serão e são muito bem vindos, como é da cultura desse povo e que começou lá atrás com os povos indígenas.

Olha, confesso que eu tenho muito para escrever e eu poderia ficar horas e horas, dias e dias, escrevendo e narrando fatos sobre esse maravilhoso e hospitaleiro município, que como todos sabem, acolhe principalmente o povo trabalhador, civilizado, humilde e que sabe que o dinheiro na conta bancária pode comprar muita coisa, menos saúde mental e espiritual e dignidade.

Dinheiro compra livros mas não compra sabedoria.
Dinheiro compra certificados mas não compra conhecimento.
Dinheiro compra terras mas não compra lavoura saudável.
Dinheiro compra o rio mas não compra a correnteza.
Dinheiro compra a verdade mas a mentira sempre aparece.

O que eu quero expressar é que não sou desinformado e gosto de conhecer a história toda e não a parte emocionada que me contam.

Aqui fica meu respeito as famílias que primeiro vieram a esse território (inclusive a minha), as famílias indígenas que aqui já estavam e que traçaram uma linda história para Juara e que no que depender de mim, terá uma boa lembrança no futuro, dos que hoje, assim como eu lutam contra o preconceito, contra a mentira, contra a ganância, contra a ignorância e que principalmente, está também armado.

Armado de conhecimento para combater toda essa mentira que está sendo contada pelo Governo Bolsonaro e por quem nem sabe o que está defendendo.

Abraços…

Professor Luciano Aparecido de Oliveira Olivetto

Professor da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas – Unemat – Campus de Juara
Atua nas áreas de Administração e Gestão de setores específicos

Link do currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4469496145752749

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